O Ir. Albert Nzabonaliba, do Rwanda, é formador no MIC (Colégio Internacional Marista, Nairóbi, Kênia) onde estudam os jovens Irmãos da África, após o noviciado. Ele nos conta uma experiência, mostrando como « os pobres » lhe deram uma lição.
Ao longo do ano acadêmico de 2007-2007, a comunidade do MIC refletiu o tema : « O amor de Cristo nos compele!» (2 Cor. 5, 14). Gostei muito desse tema devido a seu caráter interpelante. É verdade que, depois de experimentar o amor de Cristo, não se pode ficar de braços cruzados.
Trata-se da experiência de um grupo de quatro senhoras que considero como « minhas boas samaritanas » (Cfr. Lc 10, 29 – 37). Em setembro de 2006, pelas 22h, após ter devolvido um visitante – refugiado numa favela de Nairóbi, « Kawangware », eis que a condução teve uma pane, e logo, num lugar perigoso. Eu vinha acompanhado de minha mãe que também viera me visitar. Éramos, pois, estrangeiros, no Kênia. É fácil imaginar o medo que deu e como eu me esforcei para descobrir a causa da pane; em vão, é claro. Depois de algumas tentativas para arrancar, eis que se aproximam essas ‘samaritanas’ e perguntam se tínhamos necessidade de ajuda. Sem esperar um segundo, lhes propus de empurrarem o carro, ainda que fosse numa subida. Fizeram-no de boa vontade. Um pouco mais adiante, quase no fim do aclive, um grupo de três homens veio em socorro e chegamos ao posto de gasolina “KOBIL”, de Dagoretti Corner. Contente, evidentemente, da ajuda, dei alguma coisa aos homens que se apressavam para voltar às suas casas. Curiosamente, as ‘boas samaritanas’ não quiseram abandonar-nos, sem antes saberem se nosso problema fora resolvido. Quando viram que eu tinha conseguido telefonar a um amigo, devido à pane, foi somente então que partiram. Quis recompensá-las, dando-lhes alguma coisa, como fizera para os homens. Recusaram, mesmo com insistência minha. Eram unânimes em reconhecer que nos viram em dificuldade e que não poderiam deixar de socorrer-nos, a seu modo. É bonito. É humano. É cristão.
O deus do dinheiro, não é o mestre daqueles que têm coração humano e encontraram a Cristo. Até o pobres se libertam em relação ao dinheiro, ao reconhecimento e à reputação. Com efeito, essas mulheres voltavam para casa, à pé, provavelmente porque não tinham os 30 Ksh (kenyan shillings) correspondentes a 0,40 de dólar, para pagar o transporte público e voltar mais cedo. Essa experiência ensinou-me muito: a admiração, em primeiro lugar; depois, a observação das condições mínimas para viver e, enfim, o amor dos pobres.
Num mundo em que se corre atrás do dinheiro, se comete crimes de toda espécie, os pobres são capazes de tomar distância, quando eles mesmos estão em necessidade. É bonito. Pelo menos, existem pessoas que crêem na Providência (Lc 12, 22-24) e que são felizes com o pouco que têm para sobreviver, nas grandes cidades do mundo.
Não fiquei apenas na admiração; ao contrário, de uma parte, sempre aumenta, em mim, o amor aos pobres que são verdadeiramente os “abençoados de Deus e que atraem Sua bênção sobre nós e nos evangelizam” (Constituições Maristas, 34) e, por outra, a confiança de que Deus não destruirá esta cidade porque, nela, sempre encontrará pessoas boas (cf. Gn 18, 17-32). Pouco importa se achar poucos.
Isso nos convida a fazer o bem sem cansar, sem esperar recompensa de nenhum tipo. Lembro-me de quando era escoteiro, muito novo e fervoroso, cada vez que terminávamos a reunião, o chefe nos dizia: “às B.A.= às Boa Ações cotidianas” sem saber exatamente o que isso significava. Compreendi-o, mais tarde. Um outro movimento de Ação Católica (Grupo Xavéri), muito conhecido na África Central, tinha quase o mesmo eslógão: “Caridade, sempre!”
O amor ou a caridade de Cristo nos impele…Quando contei aos coirmãos o que nos tinha acontecido, no caminho de volta, eles me escutaram e imaginei que tinha acabado. Pensei que não tinha causado grande impressão. Ao contrário ! Não demorou muito e eles também se encontraram em situação quase igual. Vinham do apostolado (AFA: Atividades Apostólicas e Formativas) numa das grandes favelas do mundo, talvez a mais populosa de nosso planeta, KIBERA. Algumas estatísticas dizem que aí se encontra mais ou menos um milhão de pessoas. Sem mencionar outros lugares e formas de apostolado dos nossos jovens Irmãos do MIC, em KIBERA, eles dão catequese às crianças e aos jovens, preparando-os aos sacramentos de iniciação.
Voltando pela rodovia Langata, um pouco além de “Uhuru Gardens”, numa subida, estava um carro, no meio da auto-estrada, impedindo a circulação, criando engarrafamento e tráfego desordenado por parte dos motoristas de ônibus e táxi, os “MATATU”. Quando nossos Irmãos conseguiram , finalmente, passar, alguns metros adiante, um deles observou: “nesse carro em pane, há apenas um senhoras idosas, não poderíamos dar uma mão para fazer funcionar o carro? Sem hesitar, estacionaram o microônibus e foram empurrar o carro que não tinha mais gasolina.
Depois de sua boa ação, sentiram-se felizes por terem ajudado a essas pessoas necessitadas e contentes de poderem contar a história. Senti em mim os sentimentos de Cristo, dizendo a seus discípulos: “Venham, sozinhos, para um lugar deserto e descansem um pouco” (Mc 6,31). Parece que alguns passageiros, de outros carros que passavam, faziam comentários sobre a identidade desses jovens que prestavam socorro. A única identificação que eles tinham era a de “bons samaritanos”. Nada mais.
O amor de Cristo nos convida a fazer o bem. A condição é simples: deixar falar o coração. Por isso, abramos os olhos para ver a necessidade das pessoas, especialmente as pobres. Um gesto, por menor que seja, é mais significativo que os discursos ou os projetos que nos enriquecem, em vez de enriquecer-nos do amor de Deus. Sendo assim, talvez seria melhor interromper alguns projetos que não consideram as reais necessidades das pessoas. É uma ordem do Senhor: “Dai-lhes vós mesmos de comer” (Mc 6, 37).
O amor de Deus é como um fogo que arde sem consumir-se (cf. Ex 3, 2) e aquele ou aquela que se aproxima torna-se como Moisés, que libertou o povo de Deus, ou como Jesus que não tem outros braços senão os meus e os teus. Diante da necessidade dos pobres, não se deve cruzar os braços; antes, é preciso abri-los porque “a medida com que medirdes, medirão para vós, em troca” (Lc 6, 38). |